Por Maria Eduarda Rockenbach Dullius e Fernanda Ost
Quando as enchentes de maio atingiram de forma severa o Vale do Rio Pardo e Vale do Taquari, as respostas às emergências exigiram muito mais do que esforço humano: exigiram coordenação, informação em tempo real e decisões rápidas em um cenário de absoluta escassez de recursos. Foi nesse contexto que uma solução tecnológica já existente ganhou um novo significado ao ser adaptada para atuar diretamente no gabinete de crise durante a catástrofe, auxiliando a Defesa Civil do Rio Grande do Sul durante operações de resgate e logística em áreas afetadas por enchentes, com foco no uso de aeronaves.

A plataforma Samurai, desenvolvida pela startup 4care Tecnologia, havia sido criada originalmente para melhorar a comunicação entre as unidades móveis de urgência e emergência, como ambulâncias e hospitais. Antes mesmo da enchente, o sistema já estava em funcionamento: um aplicativo instalado na unidade móvel permitia que, assim que a equipe soubesse para qual hospital a vítima seria encaminhada, todas as informações clínicas fossem enviadas antecipadamente. No hospital, um monitor exclusivo exibia esses dados em tempo real, permitindo que a equipe da sala vermelha se organizasse antes mesmo da chegada da ambulância.
Inicialmente desenvolvido para apoio terrestre, o sistema foi rapidamente ajustado para monitorar deslocamentos aéreos em tempo real, permitindo ao gabinete de crise acompanhar saídas, trajetos, horários de chegada e retornos de helicópteros e outras aeronaves. Uma das principais funcionalidades implementadas foi o despacho de ocorrências, que permitiu registrar e designar missões específicas, como envio de mantimentos, transporte de insumos hospitalares e resgate de pacientes. Essas ocorrências eram atribuídas diretamente a aeronaves via aplicativo, o que otimizava a organização das operações. Além disso, a solução passou a registrar toda a movimentação com geolocalização precisa, garantindo transparência e rastreabilidade, o que foi fundamental para evitar duplicidade de ações, comprovar o cumprimento das missões e facilitar a prestação de contas por meio de relatórios confiáveis.
Mari Ângela Gaedke, professora da Universidade de Santa Cruz do Sul (Unisc) e sócia da startup, destaca que, com a instalação do gabinete de crise na própria Unisc durante as enchentes, a equipe da 4Care rapidamente percebeu que a tecnologia poderia ir além de sua função original e colocou a plataforma à disposição: “A gente enxergava que talvez pudesse auxiliar. Se não diretamente com a função original, pelo menos com adaptações”, relata. A resposta foi imediata. Ainda naquele mesmo dia, a equipe se reuniu com o coordenador da Defesa Civil designado para o gabinete de crise, que prontamente reconheceu o potencial da solução. A partir daí, iniciou-se um processo intenso de adaptações, sempre guiado pelas necessidades reais do território.
Um dos primeiros desafios foi a mudança do tipo de deslocamento. Durante a enchente, a maior parte das operações passou a ser realizada por via aérea. “Até então, a plataforma só havia sido testada com unidades terrestres. Não sabíamos se funcionaria em aeronaves, especialmente helicópteros”, relembra Mari. Mas já no dia seguinte começaram os testes com as aeronaves e o sistema passou a operar também no ar.
Com isso, o gabinete passou a acompanhar, em tempo real, quando cada aeronave saía, onde estava, a previsão de chegada ao destino e, principalmente, o horário de retorno, permitindo organizar a próxima missão. A plataforma também ganhou uma funcionalidade inédita: o despacho de ocorrências. A Defesa Civil passou a registrar no sistema cada missão, seja o transporte de mantimentos para municípios, a busca de medicamentos e insumos hospitalares na região metropolitana, ou o resgate de pacientes que precisavam ser levados para hemodiálise. Esses registros passaram a compor um histórico detalhado das operações, com dados de geolocalização e rastreabilidade.
Outro desafio enfrentado durante o auge das enchentes foi a sobreposição de esforços. Mais de uma aeronave, ao sobrevoar a mesma região, podia identificar vítimas aguardando resgate. Sem uma comunicação estruturada, isso resultava, por vezes, no envio duplicado de helicópteros para o mesmo ponto. A solução veio novamente pela tecnologia: foi criada uma funcionalidade que permitia à tripulação marcar, diretamente no aplicativo, um ponto onde haviam sido avistadas vítimas. Essa informação chegava instantaneamente ao gabinete de crise, otimizando tempo e recursos. Embora essa funcionalidade tenha sido desenvolvida quando o período mais crítico dos resgates já havia passado e, por isso, não tenha sido amplamente utilizada em campo, ela ficou pronta e integrada ao sistema. “Se algo assim voltar a acontecer, esperamos que não, a solução já existe”, afirma a sócia da startup.
Durante semanas de uso, a plataforma também gerou relatórios e mapas de calor que mostravam os principais deslocamentos das aeronaves, evidenciando os corredores mais críticos entre municípios como Santa Cruz do Sul, Lajeado, Sinimbu, Rio Pardo e Porto Alegre. Esses dados reforçaram o papel da tecnologia não apenas na resposta imediata, mas também no aprendizado pós-crise.Ao final, a plataforma foi desativada como operação emergencial, mas permanece pronta para ser reativada e evoluída, caso necessário. Mari Ângela ressalta que, para a equipe da 4Care, a experiência foi mais do que técnica, foi profundamente simbólica: “É muito gratificante poder colaborar e devolver para a sociedade todo o investimento feito em ciência e tecnologia. Todos nós da 4care, em algum momento, fomos bolsistas de mestrado ou doutorado com recursos públicos. Poder devolver isso em forma de impacto social foi muito importante.”