Resiliência e adaptação: como reocupar espaços atingidos por tragédias climáticas de forma segura?

Diretor do IPH fala sobre a importância da transformação consciente

Diretor do IPH fala sobre a importância da transformação consciente

As inundações de 2024 praticamente varreram do mapa algumas localidades. Em setembro de 2025, quase 20 mil pessoas ainda aguardavam por um novo lar. O professor e diretor do Instituto de Pesquisas Hidráulicas (IPH) da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) e do Centro Universitário de Estudos e Pesquisas sobre Desastres (Ceped-RS), Joel Avruch Goldenfum, compartilhou sua visão técnica sobre o evento climático extremo de 2024, equiparando o evento, em termos de impacto e características, à grande enchente de 1941, notando que ambos ocorreram em anos de El Niño, condição climática que aquece as águas do oceano Pacífico, e envolveram um núcleo convectivo de mesoescala, um fenômeno meteorológico que causa chuva intensa em grandes áreas.

Com mais de 30 anos de carreira, o especialista destacou que a enchente de 2024 superou a de 41 em volume de chuva em menor tempo, estabelecendo um novo parâmetro de evento crítico para a região. Goldenfum apontou características distintas entre as inundações na Região dos Vales e na Região Metropolitana de Porto Alegre. Enquanto nos vales (como Taquari e Antas) a água subiu e baixou rapidamente com grande energia, arrastando construções e objetos, no entorno do Guaíba o aumento foi mais lento, mas o escoamento levou muito mais tempo. Essa alta energia nos vales, diferente de eventos recorrentes anteriores que apenas elevavam o nível da água nas várzeas sem destruição, foi um fator-chave. A falta de expectativa e preparação da população para um evento dessa magnitude foi um problema que se repetiu em diversas localidades.

O professor enfatizou que a tendência é de eventos críticos cada vez mais intensos e frequentes devido às mudanças climáticas, exigindo medidas de redução de impacto que se dividem em dois grandes grupos: engenharia (sistemas de proteção) e preparação da população. Ele alertou que obras de proteção precisam ser analisadas cuidadosamente para evitar a transferência de impactos para áreas a jusante (abaixo no rio), o que inviabilizaria essa solução em locais como os vales. A principal recomendação é focar em medidas não estruturais, como o ordenamento territorial. 

“Tem áreas que a gente diz, olha, isso não é adequado para moradias, mas pode ser adequado, quem sabe, para um parque, pode ser adequado para um estacionamento, ou pode ser adequado para moradias ou para edificações, desde que elas estejam preparadas para isso. Então, elas podem ter um segundo piso elevado, por exemplo, um primeiro piso sem grandes estruturas.”

Para habitações em áreas de risco inevitável, a preparação estrutural, como andares elevados, é essencial. Além disso, a preparação da população com rotas de fuga, alarmes e treinamento é crucial. Goldenfum destacou a complexidade da realocação de pessoas, que envolve a perda de laços sociais, econômicos e históricos. “As pessoas, normalmente, têm laços no local onde elas vivem. Pode ser laços de atividade econômica, pode ser laços históricos, família que já vive há anos ali, pode ser laços familiares, pode ser laços de comunidade. E para retirar essas pessoas, realocar em outros locais, é difícil.”

O especialista ressalta que não há uma solução única para o problema. Embora as Soluções Baseadas na Natureza (SBN) sejam válidas e possam ajudar, por exemplo, na mitigação de alagamentos localizados, que tecnicamente se diferenciam de inundações em áreas de alta declividade, a resposta deve ser um conjunto de medidas que incluem obras físicas, ordenamento territorial e preparação comunitária. Cada município e comunidade exigirá uma combinação diferente de ações.

Joel Goldenfum mencionou sua atuação no Comitê Científico de Adaptação e Resiliência Climática, parte do Plano Rio Grande, como um ponto relevante a ser abordado. O Comitê é uma novidade na governança de planos de recuperação e tem como função contribuir com a tomada de decisão a partir de elementos técnicos e científicos. Embora consultivo e sem poder de decisão final, sua presença demonstra um avanço ao trazer a ciência para colaborar ativamente na fase de reconstrução e planejamento de médio e longo prazo, analisando projetos e emitindo notas técnicas. Assim, a atuação do Comitê é fundamental para garantir que a reconstrução seja feita, fechando o ciclo de prevenção, mitigação, preparação, resposta e recuperação.

*Com informações de GZH

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