Especialista aponta relação entre enchentes no Vale do Taquari e a redução das matas ciliares

Ausência histórica de vegetação nativa nas margens dos rios intensificou os danos das inundações

Ausência histórica de vegetação nativa nas margens dos rios intensificou os danos das inundações

Por Gabriela Silva

A professora Elizete, da Universidade do Vale do Taquari (Univates), oferece uma perspectiva técnica e ecológica sobre a destruição causada pelas enchentes de 2023 e 2024 na região, afirmando que a catástrofe é uma consequência direta da destruição das margens dos rios. Ela explica que o evento foi deflagrado por um grande volume de chuva em um curto período de tempo sobre uma vasta bacia hidrográfica, com um relevo de alta declividade com cerca de 900 metros de altitude de diferença, o que conferiu uma enorme energia à água que descia as encostas.


Segundo ela, ao chegar nas regiões mais planas dos vales, essa água com alta energia não encontrou barreiras naturais, pois as margens dos rios estavam desprotegidas. A professora enfatiza a situação do Rio Taquari, que deveria ter, no mínimo, 100 metros de mata ciliar em cada margem, mas possuía apenas cerca de 31,6% de cobertura, com a vegetação existente apresentando, em média, apenas 5 a 10 metros de extensão. A mesma situação foi observada no Rio Forqueta. De acordo com a especialista, essa ausência de vegetação nativa permitiu que a água encontrasse um “caminho aberto, um caminho livre”, intensificando seu poder destrutivo sobre lavouras e construções. 

Elizete afirma que, se as margens tivessem sido preservadas historicamente, os impactos das inundações teriam ocorrido, mas não na proporção observada. “Este é o fator que a gente tem como responsável por tudo o que aconteceu. Então, nós temos as nossas áreas, às margens de rios ocupadas por lavoura, com praticamente ausência da mata ciliar, ou ocupadas por construções.”

Além dos danos imediatos, a professora alerta para as consequências ambientais no pós-enchente. As margens dos rios, agora totalmente expostas, tornam-se um ambiente propício para a invasão de espécies exóticas invasoras, principalmente gramíneas, que se instalam rapidamente em áreas degradadas e competem com as espécies nativas, dificultando a recuperação da biodiversidade.

Ela desmistifica a informação de que a grama pode proteger as margens dos rios e que o plantio de árvores é prejudicial. Experiências recentes, com inundações menores após os grandes eventos, demonstraram que o gramado recém-formado foi completamente arrancado, deixando o solo exposto novamente. Essa vegetação exótica cria uma propaganda enganosa de que a margem está protegida, quando na verdade, não oferece proteção alguma contra a força da água. A presença dessas invasoras é um problema ambiental silencioso e uma das maiores causas de perda de biodiversidade no mundo.

A solução, segundo Elizete, é o uso de espécies nativas características de margem de rio, pois elas possuem adaptações específicas. Plantas como o sarandim, a pitangueira e o açoita-caval têm características que permitem que a água passe por elas, reduzindo a força da correnteza sem que a árvore seja arrancada. A especialista ressalta que não se deve confundir árvores inadequadas para a beira do rio, como eucaliptos ou a flora japonesa, com as espécies nativas, que são essenciais para a resiliência.

“Nós temos que preservar as espécies nativas, porque elas são plantas que têm características como muitos fustes, troncos muito ramificados, então a água passa por entre esses troncos, não vai derrubar essa árvore e vai reduzir a força. São ramos muito flexíveis, a gente tenta quebrar eles, eles se curvam e eles não se quebram.”

Para a recuperação das áreas, é fundamental utilizar plantas e sementes coletadas nas próprias beiras de rio, garantindo que as mudas tenham as características genéticas necessárias para aquele tipo de ambiente. A professora conclui reforçando a necessidade de a população e os responsáveis pela recuperação ouvirem mais a ciência para garantir uma reconstrução sustentável e mais segura.

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