Por Maria Eduarda Rockenbach Dullius e Fernanda Ost
A Uniteg, empresa de tecnologia com sede em Taquari e atuação também no Parque Científico e Tecnológico da PUC no Rio Grande do Sul – Tecnopuc, se reuniu para dialogar com o setor de planejamento, a assistência social e o prefeito para estruturar dados e informações e desenvolver uma resposta organizada em meio à emergência, transformando a gestão de doações, garantindo transparência no atendimento às famílias afetadas e abrindo novos caminhos para o uso de tecnologia no auxílio aos governos locais. Franciele Librelotto, CEO e cofundadora da Uniteg, compartilhou um pouco sobre o propósito, o processo de desenvolvimento e aplicação desse projeto que surgiu de um intenso desafio.

A Uniteg já atuava com soluções tecnológicas inovadoras, principalmente nas áreas de educação, ensino a distância, monitoramento de ambientes e sistemas voltados à prevenção de fraudes, como reconhecimento facial e controle de dados. No entanto, seu foco não era diretamente a gestão pública em situações de desastre, mas tudo mudou com a enchente. Taquari foi uma das cidades mais impactadas, e rapidamente um grupo de empresários locais criou o movimento “Ajude Taquari”, organizando uma vaquinha online para arrecadação de recursos.
A pergunta que logo surgiu foi: como garantir que essa ajuda chegasse, de forma justa e organizada, a quem realmente precisava? Ao mesmo tempo, a prefeitura enfrentava uma realidade comum em situações extremas: planilhas improvisadas, anotações em papel, informações dispersas e uma demanda urgente por alimentos, colchões, água e kits de higiene. Foi nesse cenário que a Uniteg decidiu agir e desenhar um processo estruturado. O resultado foi o desenvolvimento, em apenas cinco dias, do sistema Safe City, criado em regime de força-tarefa, com noites inteiras de trabalho.
A solução passou a funcionar como uma plataforma integrada de gerenciamento de catástrofes. Por meio dela, foi possível cadastrar residências afetadas, mapear famílias, registrar perdas materiais, renda familiar, número de moradores e até a presença de animais. O sistema também permitia o envio e validação de fotos com geolocalização, cruzamento de CPF e endereços, evitando duplicidades e fraudes. Enquanto a assistência social registrava as necessidades e entregas, a equipe de engenharia inseria laudos técnicos, identificando danos estruturais ou outros tipos de prejuízo. Paralelamente, outro setor da prefeitura passou a controlar o estoque de doações dentro do sistema, desde a entrada de itens como colchões e água até a baixa automática no momento da entrega às famílias. Esse controle preciso trouxe um impacto direto na transparência do processo. Todas as entregas ficavam registradas, com data, horário e responsável. Situações comuns em emergências, como pedidos repetidos de doações por parte de uma mesma família, puderam ser gerenciadas com base em dados concretos. Em alguns casos, inclusive, informações do sistema foram utilizadas como evidência em questionamentos feitos ao Ministério Público, demonstrando que o atendimento havia sido realizado.

Mesmo após o período mais crítico da enchente, o Safe City continuou em uso. A prefeitura substituiu definitivamente as planilhas manuais e passou a utilizar o sistema para a gestão de benefícios contínuos, como a distribuição de cestas básicas. Quando chegaram os auxílios do Governo Federal, a plataforma facilitou ainda mais o processo: filtros automáticos permitiram identificar rapidamente famílias dentro dos critérios exigidos, com todas as evidências já organizadas.
Além da tecnologia, o impacto social também foi significativo. A vaquinha organizada pelos empresários arrecadou cerca de R$ 300 mil, valor que foi rateado entre as famílias mais afetadas que não haviam sido contempladas por outros auxílios governamentais, reforçando o caráter solidário e complementar da iniciativa.
A experiência marcou profundamente a trajetória da Uniteg. Antes focada em tecnologia educacional e serviços gráficos, a empresa passou a estruturar uma nova frente voltada a soluções para o setor público. A partir dessa vivência, surgiram novos projetos, como sistemas de gerenciamento inteligente de rotas escolares, ajudando prefeituras a organizar o transporte de estudantes. O alcance da solução também ultrapassou fronteiras. Durante uma visita ao Web Summit, em Lisboa, no período em que a cidade de Valência, na Espanha, enfrentava uma enchente, a equipe da Uniteg apresentou o Safe City às autoridades locais. Apesar das diferenças no tipo de desastre, a troca evidenciou algo em comum: a dor, a desconfiança inicial, a necessidade de organização e a importância da tecnologia como aliada em momentos críticos.
A história do Safe City é, acima de tudo, um exemplo de inovação com propósito, demonstrando como soluções criadas em contexto local podem gerar impacto real, fortalecer a gestão pública e deixar um legado para o futuro. Para o Memorial das Inundações nos Vales, esse registro cumpre um papel fundamental: preservar não apenas a memória da tragédia, mas também das respostas criativas, solidárias e inteligentes que emergiram dela e que podem, no futuro, fazer a diferença no tempo, recursos e vidas. Mais informações em: https://lp.unicfc.com.br/safe-city/