Com quase 24 anos de experiência clínica, Melissa Couto consolidou-se como uma das maiores referências brasileiras em Psicologia das Emergências e Desastres. Natural de São Francisco de Assis, mas radicada em Santa Maria, sua trajetória foi marcada pelo atendimento integral à tragédia da Boate Kiss — o primeiro cenário no país a aplicar integralmente os protocolos de resposta rápida da Força Tarefa SUS.
Desde então, Melissa atuou no apoio psicossocial de eventos críticos como os desastres da Chapecoense, Brumadinho e os tornados no Rio Grande do Sul em 2017. Em Lajeado, sua chegada coincidiu com o início da pandemia de COVID-19, onde estruturou o gabinete de crise e capacitou profissionais em Primeiros Socorros Psicológicos (PSP), conhecimento que se tornou a base para o enfrentamento das cheias históricas de 2023 e 2024 no Vale do Taquari.
Para Melissa, a psicologia das emergências não se aprende apenas nos livros, mas no “chão” das maiores tragédias do país. Com uma jornada que começou muito antes da visibilidade trazida pela Boate Kiss, ela viveu anos de um estudo solitário, traduzindo manuais internacionais quando a internet ainda era discada e o tema quase não tinha espaço no Brasil. Hoje, ela olha para o Vale do Taquari não apenas como técnica, mas como alguém que entende que o desastre não é um evento isolado, mas uma sobreposição de perdas que atravessam a alma
O Cuidado como Ponte para o Recomeço
A atuação de Melissa é guiada pela compreensão de que, quando as águas levam uma casa, elas levam também a existência e o pertencimento de quem a construiu tijolo por tijolo. A psicóloga defende que a dor não pode ser medida ou comparada, pois cada pessoa carrega sua própria medida de perda; a dor precisa, sim, ser amparada para que a dignidade possa retornar pouco a pouco.
Nesse cenário de “guerra”, como ela mesma define, o trabalho psicológico vai além do acolhimento imediato. Trata-se de uma reconstrução técnica e ética, onde o profissional deve saber caminhar entre a impotência e a esperança. Ela acredita que o legado desse momento deve ser a consciência: entender que não se pode simplesmente voltar para o mesmo lugar e agir do mesmo jeito.
Melissa enfatiza que a reconstrução emocional é um processo diário de ressignificar uma vida que, muitas vezes, não pode retornar ao lugar de origem. Sua atuação através da Rede de Apoio Psicológico (RAP) e da Cruz Vermelha busca transformar o aprendizado técnico em políticas públicas e legados de consciência para as futuras gerações de profissionais.
Para ela, o Memorial é uma forma de dar voz a quem perdeu tudo e a quem doou o melhor de si. É um convite para olhar para o caos e enxergar a possibilidade de renascer, habitando a existência de um novo jeito, mesmo em um lugar que já não reconhecemos como antes. Como ela costuma dizer aos seus alunos, o setting do psicólogo pode ser qualquer lugar onde haja alguém precisando de cuidado, pois “cuidar de pessoas sempre é o nosso ofício”.
“O luto é muito mais do que as pessoas que a gente perde. Ele é o luto do nosso lugar, do nosso pertencimento, da nossa existência”