Ações colaborativas na prevenção: o que a meteorologia tem a ver com isso?

Meteorologista fala sobre fatores climáticos, desafios técnicos e medidas de mitigação de impacto

Meteorologista fala sobre fatores climáticos, desafios técnicos e medidas de mitigação de impacto

Os eventos climáticos que atingiram o Rio Grande do Sul em maio de 2024 resultaram da combinação de diversos fatores. O fenômeno El Niño, caracterizado pelo aquecimento anormal das águas do oceano Pacífico, intensificou os chamados “rios voadores”, correntes de umidade que transportam vapor d’água da Amazônia em direção ao sul e sudeste do país, contribuindo para o volume excepcional de chuvas registrado no Estado.

De acordo com o meteorologista da Universidade Federal de Pelotas (UFPel), Marcelo Félix Alonso, os oceanos atuam como importantes reguladores térmicos do clima, e a temperatura das águas serve como um indicativo fundamental para compreender o regime de chuvas em escala global. No ano anterior, as temperaturas oceânicas permaneceram acima da média, favorecendo o desequilíbrio nas condições atmosféricas observadas.

“Aqui na América do Sul nós temos um escoamento que parte lá do Oceano Atlântico Equatorial e ele vem trazendo essa umidade oceânica por sobre a nossa região amazônica, que, por evapotranspiração, ainda nos traz mais umidade. Esse escoamento encontra os Andes e transporta toda essa umidade nas médias e altas altitudes, transportando essa umidade para a nossa região sul e sudeste”. 

Em algumas áreas do Estado, os volumes mensais chegaram a 800 milímetros, com registros diários de até 300 milímetros, especialmente na bacia do Rio Taquari, ultrapassando a marca histórica da cheia de 1941. Para Alonso, eventos dessa magnitude eram raros, mas vêm se tornando mais frequentes em razão do aquecimento global. “Nós tivemos um hiato de 80 anos do evento, comparado com 41, mas a expectativa é que um evento tão intenso quanto esse possa nos atingir em menos de 15 anos. Isso é altamente preocupante”.

O meteorologista destaca que, além das chuvas intensas, ondas de calor, frio e secas também têm aumentado em frequência e intensidade. Embora fenômenos extremos sempre tenham ocorrido, a vulnerabilidade das áreas habitadas e a falta de resiliência das cidades agravam seus impactos. Segundo Marcelo, o foco deve estar na preparação das cidades, tanto por meio de obras estruturais, como diques, quanto de soluções baseadas na natureza, como áreas de alagamento controlado e preservação de matas ciliares. Ele ressalta também a necessidade de uma transição energética sustentável, capaz de reduzir o aquecimento global e evitar que determinadas regiões se tornem inabitáveis nas próximas décadas.

O profissional integra o Comitê Científico de Adaptação e Resiliência do Governo do Estado do Rio Grande do Sul (Plano Rio Grande), que reúne pesquisadores para orientar ações de resiliência climática no Estado. Para ele, o enfrentamento das mudanças climáticas deve ser uma política permanente de, pois a pauta ambiental é urgente e precisa estar sempre no centro das decisões públicas. “É uma questão de sobrevivência. É importante que a gestão envolva o poder público, a academia, mas também muito a comunidade. A valorização da comunidade tradicional nos territórios é extremamente importante para que nós possamos nos apropriar desse conhecimento que vem de gerações em gerações, para que, junto com as informações científicas, possamos desenhar as melhores soluções”.

Ele destaca que uma das dificuldades encontradas foi a partir da previsão antecipada do evento, no qual órgãos oficiais como o Centro Nacional de Monitoramento e Alertas de Desastres Naturais (Cemaden), o Centro Nacional de Gerenciamento de Riscos e Desastres (Cenad), o Instituto de pesquisas Hidráulicas (IPH) e a Sala de Situação do Estado, conseguiram emitir alertas, porém, direcionado para Porto Alegre e Região Metropolitana. “Uma das grandes dificuldades que o Estado ainda tem é justamente ter uma sala de situação que emita o alerta, que seja abrangente para a dimensão que foi o fenômeno. Eu acho que não se dimensionou realmente o impacto, não se teve uma dimensão do impacto que esse fenômeno provocou no Estado do Rio Grande do Sul”.

Diante da situação, Marcelo apontou as universidades como detentoras de um papel decisivo no apoio à gestão pública e à Defesa Civil. Em Pelotas, destaca que a UFPel atuou diretamente nas salas de situação montadas pela Defesa Civil Regional, oferecendo previsões meteorológicas e análises técnicas que orientaram decisões de evacuação e prevenção em áreas de risco. Ele enfatiza que a inundação na região Sul ocorreu gradativamente, obtendo maior tempo para preparação.

Na ocasião, a Prefeitura e a própria defesa civil regional, a Coordenadoria Regional de Proteção e Defesa Civil (CREPDEC 4), montaram duas salas de situações no nono batalhão de infantaria motorizada de Pelotas, “que entendia-se que era o local mais alto da cidade, onde você teria o acesso melhor do básico, onde também serviria de base de pouso de aeronaves e tudo mais”.

Durante o período crítico das inundações, a UFPel foi convidada a integrar duas salas de situação instaladas no 9º Batalhão de Infantaria. Docentes e técnicos das áreas de Meteorologia, Hidrologia e Matemática atuaram voluntariamente por 28 dias, mesmo em meio à greve da instituição. O Centro de Previsões Meteorológicas (CPMET) destinou todos os recursos para apoiar as operações, oferecendo análises refinadas que orientaram a Defesa Civil e os gestores locais na tomada de decisões sobre evacuação e áreas de risco, uma contribuição essencial para reduzir os impactos do desastre.

“Nós tivemos a remoção, por exemplo, de pessoas de áreas de risco que não chegaram a inundar, porque o dique segurou, mas, por precaução, foram retiradas das suas casas. E obviamente também a retirada de pessoas de locais já inundados, como foi o caso da Praia do Laranjal, Coronha Z3, Barra, e a Lagoa dos Patos. Baseado nessa experiência, agora o Estado tende a se preparar melhor para eventos futuros. É importante lembrar também que o evento de maio de 2024, na verdade, teve o alerta e uma preparação melhor justamente por conta do evento de setembro de 2023. Acho que isso é importante deixar bem destacado”.

O Rio Grande do Sul conta com diversas estações meteorológicas, outra ferramenta crucial na previsão. O Plano Rio Grande prevê a instalação de mais 130 novas estações, destas, 113 hidrológicas e 14 hidrometeorológicas. Alonso afirma que o ideal é ter uma a cada 30 quilômetros, visando previsão de curto prazo. “O ideal seria isso. Vai aumentar a abrangência das estações de monitoramento, mas o desafio é concentrar todos esses dados. Esse acho que é o grande desafio para os próximos meses, talvez até para os próximos anos, como construir uma plataforma que agregue todos esses dados e uma plataforma de dados que seja acessível não só à comunidade científica e à gestão pública, mas à comunidade no geral. Que ela tenha também uma tradução desse dado científico para um índice mais popular, por exemplo, para que também seja acessível à comunidade civil”.

Os eventos de 2024 reforçaram que o enfrentamento das mudanças climáticas exige integração entre ciência, gestão pública e comunidade. Fortalecer a rede de monitoramento, valorizar a pesquisa aplicada e traduzir dados técnicos em ações concretas são passos fundamentais para transformar o conhecimento meteorológico em segurança para a população.

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