
A atuação do Grupo do Bem, organização sem fins lucrativos com mais de 20 anos de atuação em Santa Cruz do Sul, durante a catástrofe climática de maio de 2024 revela a força da solidariedade gaúcha, mas também expõe os desafios inerentes ao voluntariado em situações de crise. Luciana Tremea, destaca que, embora a energia do movimento fosse contagiante e motivadora, a organização exigia foco e resiliência para lidar com a diversidade e, por vezes, a falta de orientação dos voluntários.
Em momentos de caos, a coordenação da mão de obra espontânea se tornou um desafio. O Grupo do Bem precisava organizar as atividades diante de voluntários que, embora motivados, nem sempre estavam dispostos a realizar tarefas essenciais, como dobrar roupas, preferindo a ação direta de limpeza na rua. Luciana ressalta que, numa catástrofe, é necessário que o voluntário seja ágil, focado e compreenda a necessidade de realizar a tarefa disponível, mesmo que não seja a sua preferida, para não atrapalhar o fluxo. O período exigiu uma dedicação intensa, com atividades “de manhã cedo até noite adentro”, mostrando o esgotamento, mas também a “força” e “energia” que impulsionaram o trabalho.
Outro ponto crítico foi a consciência sobre as doações. Apesar de toda ajuda ser bem-vinda, a falta de triagem na origem resultava no recebimento de roupas molhadas, sujas, sapatos de salto, vestidos de festa e biquínis, em um período de frio intenso. A experiência realçou a necessidade de campanhas de conscientização para que as pessoas doem itens limpos, em condições de uso imediato e adequados ao contexto (roupa quente, cobertor).
A transparência do Grupo do Bem foi um fator decisivo para a mobilização de recursos. Eles receberam doações de dinheiro de várias partes do Brasil (Mato Grosso, Minas Gerais, Rio, Brasília, Goiás, Bahia) e empresas, construindo uma reputação de “doação segura”. A prestação de contas diária nas redes sociais, por meio de fotos e vídeos, foi fundamental para manter a confiança dos doadores. Essa credibilidade permitiu parcerias cruciais, como a compra de uma carreta de massa e 12 mil quilos de arroz para a Defesa Civil.
No entanto, a crise também trouxe a lamentável questão de pessoas que se aproveitaram da situação. O grupo precisou fechar as portas e iniciar um cadastro para as entregas, descobrindo casos de indivíduos que buscavam doações com nomes de mortos ou não atingidos para abastecer pequenos comércios.
Apesar dos obstáculos, o movimento das enchentes fortaleceu a organização. Muitos que vieram como voluntários na crise “ficaram”, inclusive o atual vice-presidente da Associação Grupo do Bem, provando que, do caos, a solidariedade e a liderança emergiram para consolidar um grupo que continua atuando diariamente, agora com atividades como a “Lavanderia do Bem”, brechós, e grupos de costureiras para ajudar hospitais e famílias em reconstrução.